Lições do Manoelito.

Posted on maio 23, 2010

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Bendito aniversário em que ganhei de presente do meu pai a poesia completa do mestre Manoel de Barros. Não paro de me surpreender com os ensinamentos do Manoelito. Meus horizontes se alteram a cada trecho e cada poema me surpreende de um jeito. Ele tem me ensinado que a desconstrução é também um caminho desde que você saiba como construir de volta.

Tem aqueles mais conservadores, como o amigo Coutinho (que me deu de volta o desejo de escrever por aqui), que são ligados em tratado de metrificação, assonâncias e em julgar o que é ou não defectível nas palavras dos outros. Nos impõem uma ditadura de sonetos e dodecassílabos. Como se fossem donos das palavras. Como se o homem fosse obrigado a seguir e aceitar as regras de outrem para uso do seu próprio idioma. Não que eu não goste da poesia clássica. Gosto e respeito. Mas não é o meu barato. Não é a minha droga. Mesmo assim ainda me serve como cimento vocabular.

É aquela velha e prazerosa contradição. Meu idioma não é seu idioma ainda que seja o mesmo idioma. Simplesmente pelo fato de que posso errá-lo a minha maneira e fazer dele o meu brinquedo. O meu lugar de quebrar paredes. De deflorar termos e de “inauguramentos” de falas. É um direito meu. Assim como é o direito de qualquer um de não gostar. Entendo e aceito tudo isso. É assim “quié”. E assim vai sendo… Fazendo do vocabulário um parque de diversões constante. Abaixo mais uma breve e valiosa lição do professor, sempre aluno, Maneco.

Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada
Do Livro “O Guardador de Águas”

VI
No que o homem se torne coisal
corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas.
Coisa tão velha como andar a pé.
Esses vareios do dizer.

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Posted in: Poesia de oásis