Recebi a ilustração hoje. O texto eu tinha lido, graças a bondade de Breno em compartilhar (Só o Google Reader salva!) diariamente as coisas interessantes que ele garimpa por esse ciberespaço sem fim. O texto foi escrito pelo sagaz Antônio Prata e mostra como não gostar de café pode se tornar algo amargo. Como é difícil você ser o único a não pedir. Como isso o torna anti-social aos olhares incrédulos de quem o ouve recursar um “expresso” ou um “ristretto”.

Como não?!
Por Antônio Prata
“Obrigado”, eu digo, recusando a xícara e, um pouco mais baixo, para evitar que a informação escape para além da minha mesa, alargando o diâmetro de minha infâmia, confesso: “eu não bebo café”.
O nobre leitor (ou leitora) que, como 99% das pessoas civilizadas, creio, gasta um bom quinhão de seus momentos sobre a Terra diante de uma xícara de café, não imagina a miríade de olhares que caem sobre mim, assim que assumo o meu, digamos, desvio. Vejo, por trás das pupilas dilatadas pelo susto, sentimentos tão vastos como a raiva e a compaixão, todos oriundos, acredito, da mais profunda incompreensão. “Como pode uma pessoa alfabetizada, de boa família, não tomar café?!”, pensam, entre um golinho e outro,sem chegar a nenhuma resposta.
Nós, os não bebedores de café, somos a escória da restrição alimentaria. Você pode não comer carne vermelha, não apreciar bebidas alcoólicas, pode até ser contra o açúcar refinado ou refrigerantes e, oferecendo explicações muito nobres, que vão do efeito-estufa à evolução de nossos sistema digestivo, ser perfeitamente aceito dentro da chamada “diversidade cultural”, mas àqueles que recusam uma xícara de café não existe tal benevolência, pois acreditam, os connoisseurs dos grãs torrados, que não se trata de gosto ou opção, mas de ignorância.
Tenho amigos do peito que, toda vez que saímos para jantar, insistem para que eu dê mais uma chance ao expresso ou capuccino de tal lugar. Não é que não gostemos, eles pensam, é que “não entendemos o café”. E, ah!, meus caros, como eu gostaria de compreendê-lo! Como eu adoraria passar tardes numas dessas mesas na calçada, tomando uma xícara, fazendo anotações num bloquinho, ou lendo um jornal, com a elegância de um filósofo francês. Eu concordo com meus acusadores. Vocês estão certos! Que literatura pode surgir diante de uma lata de Coca-light? Que lirismo existe na imagem de um homem tomando H2O, às três da tarde de uma terça-feira, no balcão da padaria? Que Simone de Beauvoir ou Maria Schneider pendurará sua capa de chuva na cadeira e estenderá um sorriso molhado a um sujeito que bebe uma Fanta-Uva? Light, ainda por cima.
Estou pensando em mudar de estratégia. Da próxima vez que recusar uma xícara e enfrentar a incompreensão da sociedade, vou dizer, sem pestanejar: “adoro café, mas fiz promessa. Só volto a beber no dia em que o Sarney não madar mais nesse país.” Como sabem os que bebem e não bebem café, não terei que aceitar a xicrinha tão cedo.