Revolução.

23 03 2009

a-virada

“O mais simples ato surrealista consiste em ir para a rua, empunhando revólveres, e atirar ao acaso, até não poder mais, na multidão. Quem não teve, ao menos uma vez, vontade de assim acabar com o sisteminha de aviltamento e cretinização em vigor, tem seu lugar marcado nessa multidão, barriga à altura do cano da arma.”

(André Breton, ‘Manifestos do Surrealismo’, Brasiliense, 1985, p. 99)

* Foto do espetáculo “A Virada”, do grupo “Os Bumburistas” e direção de Andréa Elia. Na foto, o ator Gabe Pardal em cena. O espetáculo venceu o prêmio Braskem de 2006 na categoria “melhor espetáculo adulto – júri popular”.





As coisas.

15 03 2009

“O inverno é eterno no pólo norte. Os dias dilatam no verão. A água gira em sentido anti-horário nos ralos da pia do Japão. A Patagônia fica ao norte do pólo sul. A Groenlândia fica ao sul do sul do sul da Patagônia. O mundo é redondo. Um país ao leste pode estar a oeste se você for pelo caminho mais comprido. Os carrinhos de aeroporto no Brasil são empurrados como os carrinhos de bebê e os de supermercado. Os carrinhos de aeroporto dos estados unidos são puxados. Os chineses e os yanomamis e os tailandeses e os ticuna e os bororo e os vietnamitas têm olhos puxados. Os relógios da Suíça têm um ponteiro maior que o outro, como os outros. As bússolas de Marrocos têm um ponteiro, como as outras, só. A terra do fogo é fria. A areia do Saara é como a areia da praia, mas fica longe do mar. O mar cerca todos os lugares. O Saara fica longe de qualquer lugar. As cidades crescem na maré baixa e encolhem na maré cheia. A Guiana Francesa fica longe da França. A África do Sul é na África. O Equador fica no meio do mapa. O Hawai fica no meio do mar.”

(Arnaldo Antunes)





Palavras ao Pardal.

3 03 2009

animacao_paty

Em 2 semanas pode-se viver mais do que 2 anos?
Sim. Essa seria minha resposta. Não sei se no quiz do McCandless, não sei se entre um gole de cerveja e outro sentado ao seu lado ali na Dinha. Ou no porto. Ou numa baiana de acarajé qualquer…
Sou a prova viva disso. Você também.

A vida me provou isso
E provei isso da vida
Depois de tantos dias me encontrando
e tentando encontrar a paz naquele paraíso distante
me olhei no espelho e vi um outro
Barba crescida começando a mostrar sinais de rebeldia
Rebeldia pulsante como a do sol impiedoso que descascou
A pele dos meus braços

Embora me sentisse aparentemente mais magro
Questão que foi alvo dos comentários da família
Estava visivelmente mais saudável, mais iluminado, mais vivo
Tanto por fora, revelado pelos calos e bolhas acumulados
Nos pés um tanto inchados e encardidos da terra fértil
De um lugar ainda mais fértil em vidas e pensamentos
Quanto por dentro, rejuvenescido e renovado pelo contato
primitivo com a natureza, por viver o dia de forma inteira

E ser tratado como igual por famílias que vivem por opção num isolamento mais que saudável necessário a preservação de uma atmosfera saudável, de um ambiente saudável. Em poucos dias e em tantas conversas me ensinaram mais do que a faculdade que fiz… Que pretensiosamente quis e achou que pudesse me ensinar algo tão significativo e essencial como o Paty me ensinou…

Trocaria meus 4 anos de faculdade por outros 7 dias no Vale do Paty na companhia de Gabe e Clarinha, tendo a presença de pessoas
ricas em espírito e qualidade de vida e enriquecedoras nas suas falas e formas de ser e ver o mundo…

Jaílson, Jaílton, Altemar, Jácio, Seu joão, Seu Zé Preto, Seu Wilson, Dona Maria, Nara, Wilton, Valquíria, Carlitos foram meus professores ao me ensinarem como é bom viver… Ao me ajudarem enxergar que viver é bem diferente de sobreviver. E sobre “viver” eles mostraram da forma mais simples e correta…

Que embora não saibam que sabem
Eles sabem muito mais do que muitos
Que aqui acham ou fingem que sabem
Mas não sabem que muito lhes falta para entender
Que viver é diferente de sobreviver
Que o preço do feijão não cabe no poema
Que de fato, nada lhes acontece, exceto
talvez o estranho que lhes pisa o pé no elevador
e se desculpa.
Que falam dos desastres,
dos crimes, dos adultérios,
mas isso não se torna nada mais que as tais “leituras de jornal”.

Não fui para chapada apenas para fugir do carnaval
Ainda que tenha fugido
Fui para ver e sentir a vida como ela é
E como ela deve ser
E voltei mais homem, mais humano, mais feliz pelo que vivi
E mais triste pelo que agora penso que viverei

Mas a escolha – eu disse ao Pardal – é de cada um:
Viver ou sobreviver?
Nas curvas dos rios e montanhas do Vale do Paty
Encontrei a resposta
Espero não esquecê-la
Não esqueça também camarada…

Abraço forte.

O papo continua num acarajé que marcaremos durante a semana que segue.